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O "HÁVAMÁL", AS PALAVRAS DO ALTÍSSIMO, TRADUZIDO DO NÓRDICO ANTIGO – EDIÇÃO DE J. O. BILDA (PRIMEIRA PARTE)

 

Com o objetivo de aplacar querelas de tradução e reapresentar, tanto ao leitor leigo quanto ao experto, um clássico da espiritualidade nórdica que, como integrante do movimento de reconquista legítima da religião natural cada vez mais forte na Eurásia desde o século passado – uma causa a ser abraçada não apenas pelo eurodescendente no estrangeiro, mas por todos os povos despertos à urgência de se pertencerem antes de se determinarem –, não encontra rival em termos de antiguidade e originalidade típica, compartilho sob novo formato revisado esta tradução bilíngue do nórdico antigo – conquanto incluindo comparações com edições inglesas já consagradas – desenvolvida por Dr. Elton O. S. Medeiros do Hávamál, publicada originalmente enquanto artigo científico pelo periódico eletrônico Mirabilia Journal em 2013. Encontra-se disponível no acervo digital da revista enquanto documento público, bem como em diversos outros sites, na sua versão integral.

O extenso estudo introdutório e comentários foram por ora retirados nesta minha edição com o fito de facilitar e dinamizar a leitura do imperito e não sobrecarregar o entendimento da poética com notas de rodapé excessivas e não raro alheias ao conteúdo de qualidade ético-espiritual alvejado. Com efeito, sugere-se absolutamente a leitura integral do artigo científico, que se destaca por sua excelência historiográfica.

Segundo apresentação sintetizada por Tiago Medeiros a partir das edições inglesas de H. A. Bellows e O. Bray da Edda Poética, este poema segue a Völuspá, as Profecias da Vidente, no Codex Regius, o manuscrito islandês do século XIII que contém a Edda em verso, preservado pela Universidade de Cambridge. Em sua forma original, este texto se nubla em mais enigmas que qualquer outro dos poemas. Evitando entrar em detalhes sobre diversas teorias, o que aconteceu entre os nórdicos parece ter sido o seguinte. Há coleções de provérbios e conselhos de sabedoria que foram atribuídos a Odin, tal qual os provérbios bíblicos foram a Salomão. Esta coleção, presumivelmente flexível em sua dimensão, ficou conhecida como “Palavras do Altíssimo”, e constitui a base do presente poema. Assim, um catálogo de runas, ou encantos, foi adicionado, como outros assuntos tidos por pertinentes.

Nas palavras da versão de Medeiros:


“Poucas coleções de sentenças na história literária apresentam uma sabedoria tão sólida no mundo, brevemente expressos do que o Hávamál. [...] Se ele apresenta a sabedoria mundana de uma raça violenta, ele também mostra os nobres ideais de lealdade, verdade e coragem inabalável.” [1]

A presente edição atravessou revisão e correção ortográfica. Notas explicativas foram acrescidas ou resumidas nos casos de necessidade.

J. O. Bilda

Brusque, 07 de abril de 2021.


O HÁVAMÁL, AS PALAVRAS DO ALTÍSSIMO

I. Os ensinamentos de Odin

 1.
Em todas as portas,
antes de entrar,
deve-se observar,
deve-se procurar,
pois é difícil saber
onde os inimigos
se sentam na habitação de antemão.

2.
Saudações aos anfitriões!
um convidado está vindo:
onde ele deve procurar para se sentar?
Muito em breve
com a espada ele deve
testar sua coragem.

3.
O fogo é necessário
para aquele que vem
com os joelhos gelados;
de comida e roupas
o homem precisa,
aquele que viajou pela montanha.

4.
Água é necessária
para quem vem em busca de descanso,
(assim como) secar-se e de boas-vindas;
de boa disposição,
se ele puder obter,
palavras e silêncio em retribuição. [2]

5.
Inteligência é necessária
para aquele que viaja longe,
pois tudo é fácil em casa;
torna-se motivo de riso
aquele que não sabe de nada
e senta-se entre os sábios.

6.
De sua inteligência
o homem não deve se vangloriar,
mas ser cauteloso sobre os
pensamentos; quando o sábio e
silencioso vem até uma habitação,
raramente o mal recai sobre o cuidadoso,
pois melhor amigo
nenhum homem conseguirá
do que a grande sabedoria.

7.
O convidado esperado
que vem em busca da refeição
mantém um cauteloso silêncio,
ouve com os ouvidos,
com os olhos observa;
assim todo homem sábio se porta frente ao perigo.

8.
Dele é a sorte,
aquele que obtém para si mesmo
glória e palavras agradáveis;
isto é incerto de encontrar:
o que deve ter
no peito de outro homem.

9.
Ele é afortunado,
aquele que por si mesmo possui
glória e sabedoria enquanto
vive; pois maus conselhos
frequentemente são recebidos
do peito de outro homem.

10.
Melhor fardo
homem nenhum carrega no
caminho do que muito bom senso;
melhor do que riqueza
isto lhe parece em um lugar que lhe é estranho,
tal é o modo de ser do empobrecido. [3]

11.
Melhor fardo
nenhum homem carrega no
caminho do que muito bom senso;
pior provisão
para ele levar pelo caminho
é a bebedeira da cerveja.


12.
Não é assim tão boa,
como dizem ser boa,
a cerveja para os filhos dos homens;
pois menos o homem sabe
- quanto mais ele bebe
- de seus pensamentos.


13.
Um pássaro chamado Esquecimento:
ele paira sobre celebrações de cerveja,
ele roupa os pensamentos dos homens.
pelas penas desse pássaro
eu fui preso
no lar de Gunnlod. [4]


14.
Eu fiquei bêbado,
fiquei muito bêbado
junto com o sábio Fjalar;
por isso que a melhor das bebedeiras
é aquela da qual posteriormente
todo homem recupera seus pensamentos.

15.
Silencioso e pensativo
deve ser o filho de um líder
e ameaçador em batalha;
feliz e generoso
deve ser todo homem
até o momento de sua morte.

16.
O homem tolo
acredita que viverá para sempre
se ele evitar a batalha;
mas a velhice não lhe dará
nenhuma paz,
ainda que as lanças o poupem.

17.
O tolo boceja
quando vai até os parentes,
ele resmunga ou então fica em silêncio.
tudo acontece de uma vez
se ele consegue bebida:
libertos estão os pensamentos do homem. [5]

18.
Apenas ele sabe,
aquele que vagou por diversos lugares
e tem viajado para longe,
qual é o pensamento
que impulsiona todo homem;
é inteligente aquele que sabe disso.

19.
Que o homem não segure [6] a caneca,
beba o hidromel com moderação,
fale de forma sensata ou fique em silêncio;
por sua falta de gentileza
nenhum homem irá criticá-lo
se você for buscar pela cama cedo.

20.
O homem guloso,
a não ser que tenha sensatez,
come para sua própria tristeza;
frequentemente desperta risos
quando vem entre homens sábios:
a barriga do homem tolo.

21.
O rebanho sabe quando deve ir para casa,
e assim parte do pasto;
mas o homem tolo
nunca sabe
o tamanho de seu estômago.

22.
O homem desprezível
e de temperamento ruim
ri de todas as coisas;
ele desconhece
aquilo que ele deveria saber:
que ele não está isento de falhas.

23.
O homem tolo
fica acordado a noite toda
e pensando sobre todo tipo de coisa;
então está cansado
quando a manhã vem,
tudo ainda são problemas como eram antes.

24.
O homem tolo
acredita que todos são
amigos, os que riem com ele;
ele não percebe,
mesmo que eles lhe dirijam zombarias,
quando ele se senta entre homens sábios.

25.
O homem tolo
acredita que todos são
amigos, os que riem com ele;
então ele percebe,
quando vai à assembleia,
que ele possui poucos defensores.

26.
O homem tolo
pensa que sabe de tudo
se ele se encontrar encurralado;
mas ele não sabe
o que ele deve dizer em resposta
se os homens o puserem à prova. [7]

27.
O homem tolo,
quando vem entre os homens,
é melhor que ele fique em silêncio.
Ninguém sabe
que ele nada sabe,
a não ser que ele fale demais;
o homem não sabe,
ele que nada sabe,
já que ele fala demais.

28.
Ele parece sábio,
aquele que sabe perguntar
e do mesmo modo responder;
nada podem esconder,
os filhos dos homens,
do que se passa entre os homens.

29.
Fala demais
aquele que nunca se cala
palavras infundadas.
a língua tagarela,
a menos que tenha quem a controle,
frequentemente canta o mal para si.

30.
Um homem não
deve zombar de outro
quando ele vem visitar parentes;
muitos homens parecem sábios,
se ele não é questionado
e se mantém em silêncio, seco da viagem.

31.
Parece sábio
aquele que foge,
o convidado do convidado
zombador; não sabe com certeza,
ele que zomba na refeição,
se ele fala alto em meio a inimigos.

32.
Muitos homens
são muito amistosos entre si,
mas ainda lutam na refeição;
embate entre os homens
sempre haverá:
convidado hostil contra convidado.

33.
O homem deve frequentemente
fazer uma refeição cedo,
a não ser que venha visitar parentes;
senta-se e procura,
olha como se estivesse faminto
e consegue falar sobre pouco.

34.
É um grande caminho tortuoso
até um mau amigo,
apesar dele se encontrar no caminho;
mas até um bom amigo
conduz rotas diretas,
mesmo que ele esteja bem longe.

35.
Deve ir,
o convidado não deve ficar
sempre no mesmo lugar;
os queridos se tornam detestáveis
se permanecem por muito tempo
no salão de outro.

36.
O lar é o melhor, ainda que seja pequeno; cada homem é
livre em casa; mesmo que
possua duas cabras
e um salão coberto de salgueiros, isto
ainda é melhor do que mendigar.

37.
O lar é o melhor, ainda que
seja pequeno; cada homem
é livre em casa;
é um coração que sangra aquele
que deve mendigar comida para si
em todas as refeições.

38.
De sua arma
um homem em campo aberto não
deve se afastar um passo;
porque não se pode ter certeza
quando, fora das estradas,
uma lança é necessária para o guerreiro.

39.
Eu não encontrei um homem tão
gentil ou tão benevolente com comida
que rejeitasse um presente,
ou de seu dinheiro
tão desprendido
que uma recompensa fosse indesejada se a conseguisse.

40.
Com seu dinheiro,
quando ele o ganha,
um homem não deve passar por necessidade;
frequentemente poupa para os inimigos
o que pretendia para os amigos; muito
ocorre pior do que o esperado.

41.
Com armas e roupas
os amigos devem agradar uns aos outros,
as quais sejam mais adequadas para eles mesmos.
aqueles que dão e os que recebem
são amigos por muito tempo
se continuar ocorrendo tudo bem.

42.
Para seu amigo
um homem deve ser um amigo
e retribuir um presente com um presente.
Um riso com um riso
os homens devem se valer
e falsidade por uma mentira.

43.
Para seu amigo
um homem deve ser amigo
dele e de seu amigo;
mas de seu inimigo
nenhum homem deve
ser amigo do amigo.

44.
Saiba, se você possui um amigo
no qual você realmente confia,
e que você deseja ter algo de bom dele:
com ele você deve seus pensamentos
compartilhar e trocar presentes,
ir visitá-lo com frequência.

45.
Se você tem outro
no qual você não confia,
mas você quer algo de bom dele,
você deve falar de forma gentil com ele,
mas pense de forma enganosa
e conceda falsidade em troca de mentira.

46.
Há mais sobre aquele em quem
você não confia
e de cujo temperamento você suspeita:
você deve rir com ele
e falar o contrário do teu pensamento.
Deve retribuir tais presentes.

47.
há muito tempo eu era jovem,
eu viajei sozinho,
então acabei me perdendo no caminho:
me considerei rico
quando eu encontrei outro,
o homem é o deleite do homem.

48.
Generosos, valentes,
os homens vivem melhor,
raramente cultivam a tristeza;
mas o homem covarde
teme todo tipo de coisas,
o avarento sempre preocupa-se com presentes.

49.

Minhas vestimentas
eu dei em um campo para
dois homens de madeira.
Acreditaram que eram guerreiros
quando eles tinham roupas:
envergonhado é o homem nu.

50.
O abeto definha,
aquele que se encontra no campo:
nem casca nem folhagem o protege.
Assim é o homem,
aquele que não é amado por ninguém:
como ele poderia viver por tanto tempo?

51.
Mais quente que o fogo
entre maus amigos queima
a afeição por cinco dias;
mas então se extingue
quando o sexto vem
e toda a amizade piora.

52.
Algo grandioso
não se deve dar a um homem
que frequentemente se obtém com pouca glória:
com metade de um pão
e com um copo inclinado
eu consigo um camarada para mim.

53.
Pouca areia,
pouco mar,
poucas são as mentes dos homens,
porque todos os homens
não são sábios de forma igual:
todos os homens estão divididos.

54.
Moderadamente sábio
todo homem deve ser,
mas nunca muito sábio;
para aquelas pessoas
é mais prazeroso de se viver
quando se sabe o suficiente.

55.
Moderadamente sábio
todo homem deve ser,
mas nunca muito sábio;
porque o coração do homem sábio
está raramente contente,
se aquele que o possui é completamente sábio.

56.
Moderadamente sábio
todo homem deve ser,
mas nunca muito sábio;
de seu destino
ninguém deve saber de antemão,
sua mente fica livre de preocupação.

57.
A lenha queima a partir da lenha,
até que ela esteja queimada;
a chama se acende a partir da chama;
o homem a partir do homem
Se torna sábio ao falar,
mas muito tolo a partir da estupidez.

58.
Deve levantar cedo,
aquele que deseja ter de outro
as posses ou a vida;
raramente um lobo preguiçoso
consegue comida
ou um homem dorminhoco a vitória.

59.
Deve levantar cedo,
aquele que possui poucos trabalhadores
e vai saber de seu trabalho;
muito atrasado
está aquele que dorme durante a manhã:
metade da riqueza está na iniciativa.

60.
De tábuas secas
e de telhas para o telhado,
disto o homem sabe a medida;
e disto: de lenha
o suficiente que dure
ao tempo e à estação

61.
Banhado e alimentado
o homem cavalga para a assembleia,
apesar de seus trajes não serem muito bons;
de seus sapatos e calças
nenhum homem deve se envergonhar,
nem mesmo de seu cavalo,
mesmo que ele não tenha um bom.

62.
Se estica e agarra
quando vem até o oceano,
a águia ao antigo mar;
assim é o homem
que vem em meio à multidão
e possui poucos aliados.

63.
Perguntar e responder
todo sábio deve,
se assim deseja ser chamado de sábio.
Apenas um sabe,
outro não deve.
O povo sabe se existem três. [8]

64.
Seu poder
os sagazes devem
manter, cada um deles, com prudência;
então ele descobre,
quando vem entre os bravos,
que nenhum é o mais astuto de todos.

65.
Por aquelas palavras
que o homem disse para outro
frequentemente ele obtém pagamento. [9]

66.
Muito cedo
eu venho a muitos lugares,
mas muito tarde a alguns;
a cerveja havia sido bebida,
às vezes não estava pronta:
o indesejável raramente acerta o momento.

67.
Aqui e lá
me convidariam nos lares
se eu não precisasse de comida nas refeições;
ou dois presuntos estariam pendurados
no lar de um amigo leal
onde eu tivesse comido um.

68.
O fogo é melhor
entre os filhos dos homens
e a visão do sol;
sua saúde,
se o homem puder mantê-la,
e uma vida sem mácula.

69.
Um homem não está totalmente infeliz,
ainda que sua saúde seja péssima;
alguns são agraciados com filhos,
alguns com parentes,
alguns com muito dinheiro,
alguns com boas obras.

70.
É melhor estar vivo
do que estar morto;
o homem vivo sempre consegue uma vaca.
Eu vi o fogo queimar
perante o homem rico,
quando estava morto do lado de fora da porta. [10]

71.
O aleijado cavalga o cavalo,
o maneta conduz o rebanho,
o surdo luta e é útil;
é melhor ser cego
do que ser cremado:
um cadáver não pode ser útil a ninguém.

72.
É melhor um filho,
ainda que nasça tardiamente,
depois que um homem se vai;
pedras funerárias raramente
se mantêm pelo caminho
a menos que o parente as erga para outro.

73.
Dois fazem guerra contra um:
a língua é a destruidora da cabeça;
em cada manto eu
espero por um punho.

74.
Feliz durante a noite fica
aquele que confia em suas provisões;
curtas são as áreas de um barco;
mutável é a noite de outono.
Muitas são as mudanças do tempo
em cinco dias,
mas ainda mais em um mês.

75.
Ele não sabe,
aquele que não sabe nada:
muitos se tornam tolos através do dinheiro;
um homem é rico,
outro pobre:
não deve se culpar por seu infortúnio.

76.
O gado morre,
parentes morrem,
do mesmo modo eu mesmo morrerei;
mas o renome
nunca morre
daquele que obtém boa fama.

77.
O gado morre,
parentes morrem,
do mesmo modo eu mesmo morrerei;
Eu sei de uma coisa
que nunca morre:
a reputação de cada morto.

78.
Os currais cheios
dos filhos de Fitjung eu vi,
agora eles portam cajados de mendigo:
assim é a riqueza,
como o piscar de um olho;
ela é a mais falsa dos amigos.

79.
O homem tolo,
se consegue obter
dinheiro ou o amor de uma mulher,
o orgulho cresce nele,
mas nunca o bom senso;
ele se deixa levar pela arrogância.

80.
Assim está comprovado
que você, ao consultar as runas
– de origem divina,
aquelas que os deuses fizeram
e que foram pintadas por Fimbulthul [11]
que é melhor fazê-lo se estiver em silêncio.

81.
O dia deve ser louvado ao anoitecer,
a esposa quando ela é cremada,
a espada quando é testada,
a donzela quando ela é entregue (em casamento)
o gelo quando veio sobre (ele),
a cerveja quando é bebida.

82.
A madeira deve ser cortada ao vento;
deve-se remar pelo mar com tempo bom,
e falar com damas no escuro
– muitos são os olhos do dia.
Um barco deve ser usado para navegar,
um escudo para proteger,
uma espada para golpear
e uma dama para beijar.

83.
Junto ao fogo a cerveja deve ser bebida,
deve-se deslizar sobre o gelo,
comprar um cavalo magro
e uma espada suja [12],
engorde o cavalo em casa
e a um cão na fazenda.

84.
Nas palavras de uma donzela
ninguém deve confiar;
nem no que uma mulher diz,
pois num torno de oleiro
seus corações foram moldados
de natureza volúvel dentro de seus peitos.

85.
Um arco que range,
uma chama que queima,
um lobo que uiva,
um corvo que grasna,
uma porco que grunhe,
uma árvore sem raízes,
as ondas que se erguem,
a chaleira que ferve,

86.
uma lança que voa,
uma onda que cai,
o gelo de uma noite,
uma serpente enrolada,
a conversa da esposa na cama
ou a espada quebrada,
o competir dos ursos
ou o filho de um rei,

87.
um bezerro doente,
um escravo com vontade própria,
o bom augúrio de uma profetisa,
aquele que acabou de ser morto,

88.
um campo recém semeado,
nenhum homem confia
tão prematuramente em seu filho;
o tempo governa o campo
e o raciocínio do filho;
cada um desses é perigoso.

89.
No assassino de seu irmão,
ainda que o encontre pela estrada;
numa casa parcialmente queimada,
em um cavalo veloz
– um cavalo é inútil
se ele quebra uma pata –
um homem não é tão crédulo
a confiar em tudo isso.

90.
Tal é o amor de uma mulher
que é de temperamento traiçoeiro:
é como guiar um cavalo sem ferradura
pelo gelo escorregadio,
– intrépido de dois anos
e mal domado –
ou numa ventania furiosa
um barco descontrolado
ou como o aleijado pegar
a rena no degelo.

91.
Agora eu falarei abertamente,
pois eu conheço ambos:
volúvel são os corações dos homens pelas mulheres;
quando nós falamos de forma mais gentil
então nós pensamos de forma mais falsa.
Isto engana a mente até da mais sábia.

92.
De forma agradável deve falar
e oferecer presentes
aquele que deseja ganhar o amor de uma mulher;
reverencie a aparência
da bela dama:
ganha aquele que a cortejar.

93.
Nenhum homem
deve criticar o amor
de outro, nunca.
Frequentemente captura o sábio
quando não captura o tolo:
uma belíssima aparência.

94.
De forma alguma
um homem deve criticar o outro,
pelo que acontece com muitos homens;
do sábio um tolo
faz dos filhos dos homens:
este é o poder do coração.

95.
Apenas a mente sabe
o que está junto ao coração;
o homem está só consigo mesmo.
Não há pior enfermidade
para qualquer homem sábio
do que não estar satisfeito com nada.

FIM DA PRIMEIRA PARTE.

Referência

MEDEIROS, E. O. S. Hávamál: tradução comentada do nórdico antigo para o português. Mirabilia, Eletrônico, v. 17, n. 2, p. 545-601, jul-dez 2013. Disponível em: <https://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/pdfs/2013_02_23.pdf>. Acesso em: 02 fev. 2021.

Notas

[1] IRMANDADE HRAESVELGR. O Hávamál. Trad. T. Medeiros. Disponível em: <http://www.irmandadedehraesvelgr.com.br/>. Acesso em: 15 fev. 2021. p. 2. Nota do Editor.

[2] A interpretação dessa estrofe é a de que um convidado necessita de conversa, palavras (orðs), de seu anfitrião, e então silêncio em retorno (endrþǫgu) para que ele – o convidado – também possa falar. Nota do Tradutor.

[3] Pois num lugar estranho de tempo incerto, o bom-senso é melhor que a riqueza. O empobrecido, neste caso, é o que se crê rico, mas não dispõe de bom-senso. N. do E.

[4] Na mitologia ela é a filha do gigante Suttung, que adquire o “hidromel da poesia” dos anões Fjallar e Gjallar. Mais tarde, Odin consegue roubar o hidromel seduzindo Gunnlod. Esta história será abordada nas estrofes 104 a 110. Maiores detalhes sobre a história de Gunnlod, o hidromel da poesia e como Odin o obtém podem ser encontrados no Skáldskaparmal na Edda em Prosa de Snorri Sturluson. N. do T.

[5] Com a bebida, mesmo o mais ranzinza ou introspectivo se torna um falastrão. N. do T.

[6] Segurar no sentido de não compartilhar com os demais, reter para si. N. do E.

[7] Essa estrofe, juntamente com a estrofe 79, pode encontrar um paralelo muito semelhante na Saga do Rei Hrolf Kraki (Hrólfs Saga) quando o pai de Svipdag aconselha o filho quando este decide partir para a corte do rei Adils da Suécia: “Não inveje outros e evite a arrogância, pois tais comportamentos diminuem a fama da pessoa. Defenda-se caso seja atacado. Torne-se humilde, mas ao mesmo tempo você deve se mostrar valente se for posto à prova”. N. do T.

[8] O significado do final da estrofe seria de que se três pessoas ficam sabendo de algo, isso já não será mais segredo para ninguém e logo todos saberão. N. do T.

[9] Provavelmente metade da estrofe se perdeu. N. do E.

[10] Adotamos aqui a interpretação de Finnur Jónsson de que o fogo se trata de uma pira funerária e assim traduzimos a passagem como sendo o próprio homem rico o morto a ser cremado. N. do T.

[11] Odin. N. do T.

[12] Podemos interpretar que esta passagem queira dizer a respeito de uma espada usada apropriadamente, de qualidade, que provou seu valor, que não ficou tempo demais sem uso e tenha se embotado. N. do T.