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DAS RAÇAS HUMANAS: UMA TRADUÇÃO DO "COSMOS" DE HUMBOLDT POR J. O. BILDA

 

Um Aristóteles romântico, rodeado de discípulos e ovacionado por grandes como Goethe e Beethoven, foi o polímata Alexander von Humboldt (1769-1859) naturalista e explorador alemão, célebre pai da biogeografia e uma das mais brilhantes mentes do panteão humano. Foi dono do maior acervo naturalista da Europa, amigo próximo de Frederico Guilherme IV ao mesmo tempo que de Luís Filipe I, fundador de diversos termos científicos como “jurássico” e “isodinâmica”, lançou as bases para a geofísica e a sismologia, deu ênfase ao método científico experimentalista e ao princípio determinista de causalidade.


Era irmão de Wilhelm von Humboldt, outro polímata brilhante, destacado linguista e filósofo, maior representante do conceito educacional Bildung, “formação integral”, cuja carreira excepcional expus em meu filosófico Cartas de um solícito acompanhante, fundador da Universidade de Berlim, por quem nutriu enorme admiração por toda vida e, ao dar o último suspiro em seus braços, relatou “ter perdido metade de si mesmo”.


Em 1792, ingressou no departamento de mineração do governo prussiano, onde inventou uma lâmpada de segurança e estabeleceu uma escola técnica para mineiros. A partir de 1799 explorou a América Central e do Sul, viajando nas selvas amazônicas e nas montanhas andinas. Durante essas viagens, ele descobriu a conexão entre os sistemas dos rios Amazonas e Orinoco. Estudou a corrente oceânica na costa oeste da América do Sul que ficou conhecida como Corrente de Humboldt, agora Corrente do Peru.  Retorna à Europa em 1804. Sua pesquisa ajudou a lançar as bases para a climatologia comparativa, traçou uma conexão entre a geografia de uma região e sua flora e fauna, e adicionado à compreensão do desenvolvimento da crosta terrestre. Em Paris, empregou seus recursos financeiros para ajudar Agassiz, Gay-Lussac e outros a deslancharem carreira. Em 1829, viajou para a Rússia e a Sibéria e fez observações geográficas, geológicas e meteorológicas da Ásia Central. Durante a década de 1830, investigou tempestades magnéticas.

Suas viagens pelas Américas lhe despertaram um novo interesse, mas que desenvolveu apenas parcialmente: a antropologia. Teve a oportunidade singular de observar muitos povos e costumes e, em seu caráter romântico idealista de Göttingen, pacifista conciliatório e dono de uma excepcional humildade cristã protestante, sempre buscou dar mais peso ao que nestas nações se assemelhavam, do que no que se distinguiam. Em um diário de viagem, escreve: “Há uma unidade íntima na equação da vida... A vida é uma só.” Esta ideia de uma filosofia cósmica lhe provocou um fascínio que o guiaria até a concepção de uma das obras científicas mais ambiciosas da História – obra esta que só foi possível com a reunião amistosa e cooperação de um corpo inigualável dos maiores especialistas de seu tempo e à qual devotou os últimos 25 anos de sua vida: Kosmo, Entwurf einer physischen Weltbeschreibung, o “Cosmos, um esboço da descrição física do Universo”.

Aos 89 anos, tendo mantido, ao longo da vida, amistosas relações com correspondentes norte-americanos, tendo inclusive selado amizade com Thomas Jefferson e os poeta Bayard Taylor, que o visitava em Berlim, recebe o convite de prestigiar a solenidade do aniversário de Washington, ao que o secretário da delegação propõe dois brindes: “A George Washington, pai de sua pátria, e ao Barão von Humboldt, rei da ciência, cujos sapatos os reis comuns não são dignos de desatar”. Poucos depois, falece, silenciosa e pacificamente, em casa, enquanto ainda trabalhava no quinto volume do Cosmos, com vitalidade e entusiasmo dificilmente diminuídos e com uma memória intacta, aos 90 anos.

Muito lamentavelmente, até hoje, seu Kosmo não possui uma edição portuguesa, apesar de já na época de sua publicação ter sido editada e traduzida inúmeras vezes por toda Europa, ficando relegados ao leitor lusófono, como sempre, os restos da boa-vontade de alguns comentadores, não raro umedecidos com saliva ideológica, ofertados em resumos e críticas aplainadoras que impossibilitam a apreciação adequada e honesta do autor e seu pensamento.


Seu primeiro tomo é dedicado à geografia física em termos mais gerais e discussões sobre o método experimental de que lançou mão, descendo como que em graus, do espaço sideral e sistemas planetários até os fenômenos climáticos e seres vivos, para concluir em considerações sobre as raças humanas. E é a esta parte final da edição inglesa deste primeiro volume que dedico, agora, especial atenção numa tradução inédita, que exporá a opinião de Humboldt sobre o homem em termos de antropologia física em duas asserções harmônicas, a citar que, (I) muito embora o homem divida-se em grupos bastante heterogêneos, nos quais influem, de modo determinante, a constituição física, o habitat, a língua e uma direção às faculdades intelectuais e morais – grupos raciais ou subespecimais, conformes à terminologia científica, os quais prefere chamar de “variedades” ou eufemizar como “famílias de nações” – e que hajam nações mais “suscetíveis ao cultivo mental” que outras, (II) lamenta profundamente o aparecimento de conclusões que levam a defender uma pretensa superioridade ou alegada inferioridade de umas e outras por si mesmas, pois que defende a “unidade da espécie humana” possibilitada pelo intercâmbio da linguagem – e aqui busca o grato auxílio do irmão – fundamentada na crença de que todas as raças e nações são “projetadas em um mesmo grau para a liberdade”.


O movimento romântico, através dos apaixonantes Discursos de Rousseau, do trágico Werther, do temperamento impossível de Beethoven e os opúsculos provocantes de Schopenhauer, fora um dos meus mais precoces interesses nos anos de juventude, mas só durante os estudos mais maduros em História da Educação, muito bem orientado pelo mestre Paul Monroe e textos emancipatórios do Instituto LaRouche de educação clássica, foi que descobri a inestimável contribuição de Wilhelm von Humboldt para a linguística e a educação, e, por sua obra, a de seu irmão, para as ciências naturais. A lâmina de Saturno é veloz e não pude seguir seu golpe com meus olhos distraídos: já se vão quatro anos desde que discuti e compartilhei de meu fascínio para com os irmãos Humboldt com o ainda fiel amigo, o hábil naturalista Dr. Glauco Köhler, quem já no despontar dos primeiros raios da mocidade seguira os passos de Alexander, que tomara por mestre e inspiração, e lhe guiara em sua carreira luzente pelas salas de aula, centros de pesquisa e laboratórios do Sul e do Norte do país – e mais além, em viagens extasiantes pela América do Sul bravia. E tal qual reforço recíproco ao espírito, trocamos, como presente mútuo, uma antiga edição inglesa do Cosmos, à promessa de que ambos faríamos justiça, cada um a seu modo, ao legado dos irmãos Humboldt, em nossas jornadas intelectuais. Rumando a este sagrado fim, ao amigo germano, jovial, viril e de espírito sempre jovem, dedico esta singela tradução. Herr Köhler, receba meus cumprimentos!

Brusque, 03 de dezembro de 2021.

DAS RAÇAS HUMANAS[1]

O quadro geral da natureza que me esforcei para delinear ficaria incompleto se eu não me aventurasse a traçar algumas das características mais marcantes da raça humana, consideradas com referência às gradações físicas – à distribuição geográfica dos tipos contemporâneos – ao da influência exercida sobre o homem pelas forças da natureza, e a ação recíproca, embora mais fraca, que ele por sua vez exerce sobre essas forças naturais. Dependente, embora em menor grau do que plantas e animais, do solo e dos processos meteorológicos da atmosfera pelos quais está rodeado – escapando mais prontamente do controle das forças naturais, pela atividade da mente e pelo avanço do cultivo intelectual, não menos do que por sua maravilhosa capacidade de se adaptar a todos os climas – o homem em todos os lugares torna-se mais essencialmente associado à vida terrestre. É por meio dessas relações que o obscuro e muito contestado problema da possibilidade de uma descendência comum entra na esfera abrangida por uma cosmografia física geral. A investigação desse problema transmitirá um interesse mais nobre e, se assim posso me expressar, mais puramente humano, às páginas finais desta seção de meu trabalho.

O vasto domínio da linguagem, em cuja estrutura variada vemos misteriosamente refletido os destinos das nações, está mais intimamente associado à afinidade das raças; e o que mesmo pequenas diferenças de raças podem causar fica notavelmente manifestado na história das nações helênicas no zênite de seu cultivo intelectual. As questões mais importantes da civilização da humanidade estão conectadas com as ideias de raças, comunidade de linguagem e adesão a uma direção original das faculdades intelectuais e morais.

Enquanto a atenção foi dirigida apenas para os extremos nas variedades de cores e formas, e para a vivacidade da primeira impressão dos sentidos, o observador estava naturalmente disposto a considerar as raças mais como espécies originalmente diferentes do que meras variedades. A permanência de certos tipos em meio às influências mais hostis, especialmente do clima, parecia favorecer tal visão, não obstante a brevidade do intervalo de tempo do qual as evidências históricas foram derivadas. Em minha opinião, entretanto, razões mais poderosas podem ser apresentadas em apoio à teoria da unidade da raça humana, como, por exemplo, nas muitas gradações intermediárias na cor da pele e na forma do crânio, que nos foram revelados nos últimos tempos pelo rápido progresso do conhecimento geográfico – as analogias apresentadas pelas variedades nas espécies de muitos animais selvagens e domesticados – e as observações mais corretas coletadas quanto aos limites de fecundidade em híbridos. A maior parte dos contrastes que antes se supunha existirem desapareceram antes das laboriosas pesquisas de Tiedemann[2] sobre o cérebro dos negros e dos europeus, e das investigações anatômicas de Vrolik[3] e Weber[4] sobre a forma da pelve. Comparando as nações africanas de cor escura[5], sobre cuja história física a admirável obra de Prichard[6] tanto lançou luz, com as raças que habitam as ilhas do arquipélago do Sul da Índia e da Austrália Ocidental, e com os papuas e alfouros[7], vemos que uma pele negra, cabelo lanoso e uma aparência negroide[8] não estão necessariamente ligados entre si. Enquanto apenas uma pequena porção da terra era conhecida pelas nações ocidentais, visões parciais necessariamente predominavam, e tropical calor e uma pele negra, consequentemente, pareciam inseparáveis. “Os etíopes”, disse o antigo poeta trágico Teodectes de Faselis[9], “são coloridos pelo deus-sol próximo em sua trajetória com um brilho fuliginoso, e seus cabelos são secos e quebradiços com o calor de seus raios”. As campanhas de Alexandre, que deram origem a tantas novas ideias a respeito da geografia física, também suscitaram primeiro uma discussão sobre a problemática influência do clima nas raças. “Famílias de animais e plantas”, escreve um dos maiores anatomistas da época, Johannes Müller, em seu nobre e abrangente trabalho, Physiologie des Menschen, “sofrem, dentro de certas limitações peculiares às diferentes raças e espécies, várias modificações em sua distribuição na superfície da terra, propagando essas variações como tipos orgânicos de espécies. As atuais raças de animais foram produzidas pela ação combinada de muitas condições internas e externas, cuja natureza não pode ser definida em todos os casos, sendo as variedades mais notáveis ​​encontradas nas famílias que são capazes das maiores distribuição sobre a superfície da terra.

As diferentes raças da humanidade são formas de uma única espécie, pela união de dois de cujos descendentes são propagados. Eles não são espécies diferentes de um gênero, já que, nesse caso, seus descendentes híbridos permaneceriam inférteis. Mas se as raças humanas descendem de várias raças primitivas de homens, ou de apenas uma, é uma questão que não pode ser determinada pela experiência.”

As investigações geográficas a respeito do assentamento antigo, o chamado berço da raça humana, não carecem de um caráter mítico. “Nós não sabemos”, diz Wilhelm von Humboldt, em uma obra inédita Sobre as variedades das línguas e das nações, “seja da história ou da tradição autêntica, qualquer período de tempo em que a raça humana não tenha sido dividida em grupos sociais. Se a condição gregária foi original ou de ocorrência subsequente, não temos evidências históricas para mostrar. As relações míticas separadas que existem independentemente umas das outras em diferentes partes da terra, parecem refutar a primeira hipótese e concordar em atribuir a geração de toda a raça humana à união de um par. A prevalência geral desse mito fez com que fosse considerado um registro tradicional transmitido do homem primitivo a seus descendentes. Mas esta mesma circunstância parece antes provar que isto não tem fundamento histórico, mas simplesmente surgiu de uma identidade no modo de uma concepção intelectual, que tem levado o homem em todos os lugares a adotar a mesma conclusão a respeito de fenômenos idênticos; da mesma maneira que muitos mitos, sem dúvida, surgiram, não de qualquer conexão histórica existente entre eles, mas sim de uma identidade no pensamento e na imaginação humana. Outra evidência a favor da natureza puramente mítica dessa crença é fornecida pelo fato de que a primeira origem da humanidade – um fenômeno que está totalmente além da esfera da experiência – é explicada em perfeita conformidade com as visões existentes, sendo considerada no princípio de colonização de alguma ilha deserta ou vale montanhoso remoto em um período em que a humanidade já existia há milhares de anos. É em vão que dirigimos nossos pensamentos para a solução do grande problema da origem primeira, uma vez que o homem está intimamente associado à sua própria raça e às relações do tempo para conceber a existência de um indivíduo independentemente de uma geração e idade precedentes. Uma solução para tais questões difíceis, que não podem ser determinadas pelo raciocínio indutivo ou pela experiência – se a crença nesta suposta condição tradicional é realmente baseada em evidências históricas, ou se a humanidade habitou a terra em associações gregárias desde a origem da raça – não pode, portanto, ser determinada a partir de dados filológicos, e ainda assim sua elucidação não deve ser buscada em outras fontes.”


A distribuição da humanidade é, portanto, apenas uma distribuição em variedades, que são comumente designadas pelo algo indefinido termo de raças. Como no reino vegetal e na história natural dos pássaros e peixes, uma classificação em muitas famílias pequenas é baseada em um fundamento mais seguro do que quando grandes seções são separadas em poucas, mas grandes divisões; assim também me parece que na determinação das raças deve ser dada preferência ao estabelecimento de pequenas famílias de nações. Adotemos a velha classificação de meu mestre, Blumenbach[10], e admitamos cinco raças (caucasiana, mongol, americana, etíope e malaia) ou a de Prichard em sete raças (iraniana, turaniana, americana, hotentotes e bosquímanos, negros, papuas e alfouros), e nós deixamos de reconhecer qualquer agudeza típica de definição, ou qualquer princípio geral ou bem estabelecido na divisão desses grupos. Os extremos de forma e cor são certamente separados, mas isso sem levar em conta as raças que não podem ser incluídas em nenhuma dessas classes, e aquelas que foram alternadamente denominadas de citas e alofílicas. Iraniano é certamente um termo menos questionável para as nações europeias do que caucasiano; mas pode-se sustentar geralmente que as denominações geográficas são muito vagas quando usadas para expressar os pontos de partida das raças, mais especialmente onde o país que deu seu nome à raça, como, por exemplo, Turan (Mawerannahr)[11], foi habitado em diferentes períodos por indo-germânicos e fínicos, e não por tribos mongóis.

As línguas, como criações intelectuais do homem e tão intimamente ligadas ao desenvolvimento da mente, são, independentemente da forma nacional que exibam, da maior importância no reconhecimento das semelhanças ou diferenças de raças. Essa importância se deve especialmente à pista que uma comunidade de descendência oferece ao trilhar aquele labirinto misterioso no qual a conexão das forças físicas e intelectuais se manifesta em mil formas diferentes. O brilhante progresso feito no último meio século, na Alemanha, na filologia filosófica, facilitou enormemente nossas investigações sobre o caráter nacional das línguas e a influência exercida pela descendência[12]. Mas aqui, como em todos os domínios da especulação ideal, os perigos do engano estão intimamente ligados aos ricos e certos lucros a serem obtidos.


Os estudos etnográficos positivos, baseados em um conhecimento profundo da história, nos ensinam que deve ser aplicada muita cautela ao se entrar nessas comparações entre as nações e as línguas por elas empregadas em certas épocas. Sujeição, longa associação, a influência de uma religião estrangeira, a mistura de raças, mesmo quando incluindo apenas um pequeno número das tribos imigrantes mais influentes e cultas, produziram, em ambos os continentes, recorrentes fenômenos semelhantes; como, por exemplo, na introdução de famílias totalmente diferentes de línguas entre uma mesma raça, e idiomas, tendo uma raiz comum, entre nações das mais diferentes origens. Os grandes conquistadores asiáticos exerceram a mais poderosa influência em fenômenos desse tipo.


Mas a linguagem é uma parte integrante da história do desenvolvimento da mente; e, por mais feliz que o intelecto humano, sob as mais diferentes condições físicas, possa seguir irrestritamente um caminho escolhido por si mesmo e se esforçar para se libertar do domínio das influências terrestres, essa emancipação nunca é perfeita. Sempre permanece, nas capacidades naturais da mente, um traço de algo que foi derivado das influências da raça ou do clima, sejam eles associados a uma terra iluminada por céus azuis sem nuvens, ou à atmosfera vaporosa de um insular região. Como, portanto, a riqueza e a graça da linguagem são desdobradas das mais luxuriosas profundezas do pensamento, temos estado totalmente relutantes em desconsiderar o vínculo que une tão intimamente o mundo físico com a esfera do intelecto e dos sentimentos, privando esta imagem geral da natureza daquelas luzes e matizes mais brilhantes que podem ser emprestados de considerações, embora ligeiramente indicadas, das relações existentes entre raças e línguas.


Enquanto mantivermos a unidade das espécies humanas, ao mesmo tempo repelimos a suposição deprimente de raças superiores e inferiores de homens.[13] Existem nações mais suscetíveis ao cultivo, mais altamente civilizadas, mais enobrecidas pelo cultivo mental do que outras, mas nenhuma em si mesma é melhor do que as outras. Todas estão projetadas em um mesmo grau para a liberdade; uma liberdade que, nas condições mais rudes da sociedade, pertence apenas ao indivíduo, mas que, em estados sociais que gozam de instituições políticas, pertence como um direito a todo o corpo da comunidade. “Se indicássemos uma ideia que, ao longo de todo o curso da história, tem cada vez mais e mais amplamente estendido seu império, ou que, mais do que qualquer outra, atesta a muito contestada e ainda mais decididamente incompreendida perfectibilidade de toda a raça humana, é a de estabelecer nossa humanidade comum – lutar para remover as barreiras que visões limitadas e prejudiciais de todo tipo ergueram entre os homens, e tratar toda a humanidade, com referência à religião, nação ou cor, como uma fraternidade, uma grande comunidade, adequada para a realização de um objetivo, o desenvolvimento irrestrito das potências físicas. Este é o objetivo último e supremo da sociedade, idêntico à direção implantada pela natureza na mente do homem rumo à extensão indefinida de sua existência. Ele considera a terra em todos os seus limites, e os céus, até onde seus olhos podem sondar suas profundidades brilhantes e estreladas, como interiormente suas, dadas a ele como os objetos de sua contemplação, e como um campo para o desenvolvimento de suas energias. Até a criança deseja passar pelas colinas ou mares que cercam seu estreito lar; no entanto, quando seus passos ávidos o levam além desses limites, ele anseia, como a planta, por seu solo nativo; e é por esse comovente e belo atributo do homem – esse anseio pelo que é desconhecido e essa lembrança afetuosa daquilo que se perdeu – que ele é poupado de um apego exclusivo ao presente. Assim, profundamente enraizado na natureza mais íntima do homem, e até mesmo imposto a ele por suas tendências mais elevadas, o reconhecimento do vínculo da humanidade torna-se um dos princípios mais nobres da história da humanidade.”[14]

Com estas palavras, que extraem o seu encanto das profundezas do sentimento, permita-se a um irmão encerrar esta descrição geral dos fenômenos naturais do universo. Das nebulosas mais remotas e das estrelas duplas giratórias, descemos aos menores organismos da criação animal, quer se manifestem nas profundezas do oceano ou na superfície do nosso globo, e aos delicados germes vegetais que revestem o declive nu do cume da montanha coroada de gelo; e aqui fomos capazes de organizar esses fenômenos de acordo com leis parcialmente conhecidas; mas outras leis de natureza mais misteriosa regem as esferas superiores do mundo orgânico, no qual está compreendida a espécie humana em todas as suas formas variadas, seu poder intelectual criativo e as línguas às quais deu existência. Um delineamento físico da natureza termina no ponto onde a esfera do intelecto começa, e um novo mundo da mente é aberto à nossa vista. Ele marca o limite, mas não o ultrapassa.

Notas

[1] HUMBOLDT, Alexander Von. Cosmos, a sketch of the physical description of the Universe. Trad. E. C. Otté. New York: Harper & Brothers, 1858. 4 Vols. 1, pp. 351-359. Nota do Tradutor.

[2] Friedrich Tiedemann (1781-1861) foi um anatomista e fisiologista alemão, estudioso do cérebro humano, atuou como zoólogo e foi um seguidor de Cuvier, o aclamado pai da paleontologia. N. do T.

[3] Willem Vrolik (1801-1863), anatomista e patologista holandês, dedicado à teratologia. N. do T.

[4] Ernst H. Weber (1795-1878), médico e psicólogo experimental alemão. N. do T.

[5] “Dark-colored African nations”, segundo edição inglesa. N. do T.

[6] James C. Prichard (1786-1848), médico e etnólogo dedicado à antropologia física, considerou as raças humanas como uma “variedade permanente”. N. do T.

[7] Termo obsoleto que indica povos inacessíveis da Indonésia e Melanésia que viviam segundo costumes tradicionais próprios. N. do T.

[8] Segundo Carleton S. Coon (1904-1981) antropólogo americano da Harvard, célebre pela publicação de The Origin of Races em 1962, o termo negroide pode causar equívocos por sua inexatidão, mas costuma, na literatura científica moderna, designar características físicas de nativos da região central africana, como cabelo encarapinhado, intensa pigmentação, etc. O sufixo -oide vem do grego eidos, “imagem”. N. do T.

[9] Teodectes foi retórico e poeta trágico grego que viveu em Faselis na Panfília, filho de Aristandro, mas cuja maior parte da vida passou em Atenas. Viveu no século IV a.C. na época de Filipe II da Macedônia e foi discípulo de Isócrates, talvez também de Platão e/ou Aristóteles, segundo fontes antigas. Diz-se que era de grande beleza e capaz de repetir um grande número de versos depois de ouvi-los apenas uma vez, de acordo com o erudito romano Quintiliano. Dionísio de Halicarnasso, historiador romano, o coloca na vanguarda dos escritores retóricos junto com Aristóteles. N. do T.

[10] Johann F. Blumenbach (1752-1840), antropólogo e zoólogo alemão, responsável por uma famosa classificação humana em cinco raças. Além de Humboldt, foi também mestre de A. A. Berthold (1803-1861), fisiólogo e zoólogo prussiano pioneiro em endocrinologia. N. do T.

[11] Antigo nome de região da Ásia Central entre os atuais Uzbequistão, Tadjiquistão e Cazaquistão. N. do T.

[12] Wilhelm von Humboldt, Ueber die Vertchiedenheit der mentchlichen Sprachbaucted, em sua grande obra Ueber die Kam-Sprache auf der Intel Jana. Nota do Autor.

[13] A doutrina muito desanimadora e, nos últimos tempos, muito frequentemente discutida dos direitos desiguais dos homens à liberdade e da escravidão como uma instituição em conformidade com a natureza, infelizmente é considerada mais sistemática aliado ao desenvolvido na Política de Aristóteles, 3, 5, 6. N. do A.

[14] Wilhelm von Humboldt, Ueber die Kawi-Sprache. Eu acrescento o seguinte trecho desta obra: “As conquistas impetuosas de Alexandre, a extensão mais política e premeditada de território feita pelos romanos, as incursões selvagens e cruéis dos mexicanos e as aquisições despóticas dos incas, em ambos os hemisférios. contribuiu para pôr fim à existência separada de muitas tribos como nações independentes e tendeu ao mesmo tempo para estabelecer um amálgama internacional mais extenso. Homens de grandes e fortes mentes, bem como nações inteiras, agiram sob a influência de uma ideia, a pureza da qual era, entretanto, totalmente desconhecida para eles. Foi o Cristianismo quem primeiro promulgou a verdade de sua exaltada caridade, embora a semente lançada produzisse uma colheita lenta e escassa. Antes de a religião de Cristo manifestar sua forma, sua existência foi revelada apenas por um leve pressentimento. Nos últimos tempos, a ideia de civilização adquiriu intensidade adicional e deu origem ao desejo de estender mais amplamente as relações de intercâmbio nacional e de cultivo intelectual; até o egoísmo começa a aprender que, por meio de tal procedimento, seus interesses serão mais bem atendidos do que pelo isolamento violento e forçado. A linguagem, mais do que qualquer outro atributo da espécie humana, une toda a raça humana. Por suas propriedades idiomáticas, certamente parece separar nações, mas a compreensão recíproca de línguas estrangeiras conecta os homens, por outro lado, sem ferir as características nacionais individuais.” N. do A.