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A "GERMÂNIA", DE TÁCITO - EDIÇÃO DE J. O. BILDA (PRIMEIRA PARTE)

 

Esta tradução de Maria C. A. L. S. de Andrade do clássico De origine et situ Germanorum ou simplesmente Germania de Cornélio Tácito de 98 d.C., foi apresentada como uma dissertação à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP) em 2011 e encontra-se disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP enquanto documento público em formato bilíngue, com longos acréscimos de notas explicativas, estudos comparativos e comentários anexos, os quais foram afastados na presente edição sem pretender qualquer prejuízo ao entendimento ou à exaustiva pesquisa da autora, com o zeloso propósito de primeiro contato com um imortal etno-historiográfico. Entretanto, com efeito, sugere-se a leitura integral da pesquisa da autora, de modo algum preterível.


Com respeito às origens étnicas, evidências desenvolvidas por arqueólogos e linguistas sugerem que um povo ou grupo de povos partilhando uma cultura material comum residia no norte da atual Alemanha e sul da Escandinávia durante o final da Idade do Bronze (700−600 a.C.). Essa cultura é chamada de Idade do Bronze Nórdica e abrange o sul da Escandinávia e o norte da Alemanha. A longa presença de tribos germânicas no sul da Escandinávia (uma língua indo-europeia chegou provavelmente por volta de 2 000 a.C.) e o fato de não ter sido encontrados nomes de lugares pré-germânicos na região assentam esta hipótese. Os primeiros contatos dos germanos com os romanos ocorreram no ano 113 a.C., com derrotas para os romanos. Pouco depois, o general Mário mudou muito o exército e conseguiu algumas importantes vitórias sobre os germanos, de estatura muito superior aos romanos. Júlio César (século I a.C.) escreveu alguma coisa sobre os germanos. Nesse período, as tribos germânicas viviam em aldeias rudimentares, praticando uma economia comunal baseada na agricultura, na pecuária e nas pilhagens. Quando as terras se esgotavam, partiam à procura de outras. As áreas cultiváveis e os bosques eram de uso comum aos habitantes das aldeias. Apenas os rebanhos permaneciam como propriedade particular, constituindo a principal riqueza dos guerreiros.


Tácito divide Germania em duas partes: a primeira, que vai do parágrafo 1 ao 27, trata brevemente dos aspectos geográficos da região, discute sobre a origem dos bárbaros e apresenta suas características e costumes como se compusesse um grande e homogêneo grupo; a segunda, que vai de 28 a 46, trata de cada nação germana em particular, discorrendo sobre suas peculiaridades.


As sentenças em negrito são de minha responsabilidade, bem como a revisão e as correções ortográficas a serem notadas no texto original. Notas explicativas foram acrescidas nos casos de necessidade.


Referência bibliográfica: ANDRADE, Maria Cecília Albernaz Lins Silva de. A Germania de Tácito: tradução e comentários. 2011. 118 f. Dissertação (Programa de Pós- Graduação em Letras Clássicas do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011. Disponível em: <https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8143/tde-20042012-114933/publico/2011_MariaCeciliaALSilvadeAndrade_VRev.pdf>. Acesso em: 02 jan. 2021.


J. O. Bilda

Brusque, 02 de janeiro de 2021.


GERMÂNIA


1. Toda a Germânia está separada dos gauleses, retos e panônios pelos rios Reno e Danúbio, e dos sármatas e dácios pelo medo mútuo e pelas montanhas. O Oceano circunda as demais regiões, abarcando amplas baías e vastidões insulares, das quais algumas gentes e reis se tornaram recentemente conhecidos, pois a guerra os revelou. O Reno, que nasce do cimo inacessível e escarpado dos Alpes réticos, depois de se curvar um pouco para ocidente, deságua no Oceano setentrional. Já o Danúbio, a espraiar-se brandamente modesto do elevado cume da montanha Ábnoba, percorre mais povos, até que se precipita no mar Pôntico por seis embocaduras; a sétima é sorvida pelos pântanos.


2. Quanto aos próprios Germanos, eu os julgaria nativos e de forma alguma imiscuídos aos que vêm de outras gentes, porque outrora aqueles que desejavam mudar de moradia lá chegavam não por terra, mas em naus. Além disso, o imenso e, por assim dizer, oposto Oceano é visitado por poucos navios do nosso mundo. E quem, fora o perigo do mar violento e desconhecido, deixaria a Ásia, a África ou a Itália e dirigir-se-ia à Germânia, de aspecto tosco, clima rigoroso e desagradável para viver e mesmo para observar, a não ser que fosse sua pátria?


Por meio de cantos antigos, que é a única espécie de recordação e de anais que há entre eles, celebram o deus Tuistão, nascido da terra. Atribui-se a ele um filho, Mano, origem e fundador da gente, e a Mano três filhos. E a partir dos nomes destes, são chamados ingévones os que habitam próximo ao Oceano, hermíones os da região central e istévones os demais. Alguns asseguram, conforme a licença que é dada à Antiguidade, haver mais filhos do deus e mais nomes de povos, marsos, gambrívios, suevos e vândalos, e serem estes os nomes antigos e verdadeiros. A denominação de “Germânia”, pelo contrário, é recente e foi introduzida há pouco, porque os primeiros que atravessaram o Reno, expulsaram os gauleses e são chamados agora tungros, eram antes chamados germanos; assim, o nome que era de uma nação e não de um povo paulatinamente prevaleceu, de tal modo que todos foram denominados germanos, primeiramente pelo vencedor, para causar medo, e logo depois pelos próprios vencidos, ao descobrirem o nome.


3. Também recordam que Hércules viveu entre eles e, quando vão para a batalha, celebram-no como o primeiro dentre os bravos varões. Eles também possuem cantos com cujo conteúdo, que denominam barditum, acendem os ânimos ao serem entoados, e por meio destes predizem a sorte da batalha futura. Amedrontam ou abalam- se, conforme o grito do exército, e isso mostra não tanto a união de vozes quanto de valor. Almejam a aspereza do som e um ruído irregular quando põem diante de suas bocas os escudos, para que a voz se amplifique, mais forte e grave, pela reverberação. Voltando ao assunto, alguns creem que Ulisses, levado a este Oceano naquele longo e fabuloso errar, chegou em terras germânicas, e constituiu e deu nome à Ascibúrgio, que está situado às margens do Reno e é atualmente habitado. De fato, o altar consagrado a Ulisses, com o acréscimo do nome de seu pai Laertes, outrora encontrado naquele mesmo lugar, bem como monumentos e alguns túmulos com inscrições em grego ainda existem nos limites da Germânia e da Récia. Estas informações, não as pretendo confirmar pelos argumentos nem as refutar, cada qual que retire ou acrescente-lhes credibilidade conforme seu entendimento.


4. Eu próprio concordo com aqueles que julgam que os povos da Germânia não se mesclaram, por meio do casamento, com outras nações, dada a peculiaridade, pureza e tamanha similaridade de sua gente. Até o aspecto de seus corpos, embora haja um grande número de pessoas, é igual em todos: olhos azuis e ameaçadores, cabelos ruivos, corpanzis vigorosos somente ao embate; não com a mesma firmeza suportam o trabalho e os afazeres e muito menos toleram a sede e o calor intenso, mas graças ao clima e ao terreno habituaram-se ao frio e à fome.


5. Ainda que a região difira um pouco em aparência, no geral, contudo, é temível pelas florestas e repugnante por conta dos pântanos, chove mais próximo às Gálias e venta mais próximo de Nórico e da Panônia; é bastante fértil, mas não dá árvores frutíferas e é abundante em gado que são, em sua maioria, de pequeno porte. Sua honra e glória certamente não derivam da aparência dos rebanhos: alegram-se com a quantidade, e estas são as únicas e mais agradáveis riquezas que possuem. Se foram deuses favoráveis ou encolerizados que lhes negaram o ouro e a prata, eu não saberia dizer. E também não afirmaria que nenhuma mina da Germânia produz prata ou ouro: quem a explorou? Não são afetados pela posse e pelo uso igualmente. Vê-se entre eles vasilhas de prata, dadas de presente a seus embaixadores e governantes, mas estas são tidas como ninharias não diversas das que são produzidas pela terra. Embora os mais próximos à fronteira, pelo hábito do comércio, vendam o ouro e a prata por um bom preço e conheçam algumas formas de nossa moeda e escolham, os povos das regiões interiores usam do modo mais simples e tradicional a permuta de mercadorias. Aceitam uma moeda antiga e conhecida, a serrilhada e com uma biga. Também buscam mais a prata que o ouro, sem nenhuma afetação íntima, mas porque uma soma de denários de prata é mais fácil para adquirir mercadorias comuns e de baixo custo.


6. Na verdade, nem o ferro é abundante, como se pode inferir pelo tipo de suas armas. Raros são os que usam espadas ou lanças maiores: produzem lanças, ou pela denominação deles próprios frameas [1], com sua parte de ferro estreita e curta, de tal sorte afiadas e cômodas ao manejo, que com a mesma arma, consoante exige a razão, lutam quer de perto quer de longe. Um cavaleiro fica satisfeito com um escudo e uma “framea”, a infantaria atira armas de arremesso, e cada qual atira muitas a uma longa distância, pois ficam nus ou com um leve traje de guerra. Não há nenhuma ostentação em seu modo de viver; seus escudos se diferenciam somente pelas mais formosas cores. Poucos usam couraças, dificilmente um ou outro usa elmo ou capacete. Os cavalos não são notáveis nem pela aparência, nem pela velocidade, e não são adestrados a dar voltas para todos os lados como é hábito nosso: seguem em linha reta ou com uma curva à direita, de tal forma que, fechado o círculo, ninguém fique para trás. De forma geral, julgam haver mais vigor no soldado-infante e combatem unidos no mesmo local, sendo adequada e compatível à da pugna equestre a velocidade da infantaria, que é escolhida dentre a flor da juventude e posta na linha de frente. A quantidade também é determinada: de cada aldeia provêm cem, e por esse mesmo numeral são chamados entre os seus: o que a princípio era apenas um número passou a ser uma denominação e uma honra. O exército ordena-se em forma de cunha. Consideram que deixar o posto, contanto que sigas no encalço em seguida, seja questão de planejamento e não por medo. Levam os corpos dos seus mesmo em prélios ainda irresolutos. Ter abandonado o escudo é a pior desonra, e não é permitido ao ignominioso assistir aos ritos sagrados ou ir ao conselho; e muitos sobreviventes da guerra enforcaram-se para escapar à infâmia.


7. Eles escolhem seus reis segundo a nobreza e seus generais segundo a força. O poder para os reis não é ilimitado e irrefreado, os generais antes dão o exemplo que ordens, e são os mais admirados se estão preparados e visíveis na linha de frente. Ademais, castigar, acorrentar, açoitar, somente é permitido aos sacerdotes, não como uma forma de punição ou por ordem do general, mas como uma ordem do deus que creem estar junto a eles na batalha. Algumas imagens e símbolos são retirados dos bosques sagrados e carregados para o prélio; e isto é o principal estímulo da coragem, pois não foi o acaso nem a reunião fortuita que compôs a armada e a formação em cunha, mas as famílias e as amizades; e ainda têm perto de si as pessoas que lhes são mais caras, em local donde se pode ouvir os berros das mulheres e o choro das crianças. Estas são as testemunhas mais sagradas para cada um deles, estas são suas maiores lisonjeadoras: levam suas feridas até suas mães, até suas esposas, as quais não temem contar seus ferimentos ou examiná-los, trazendo alimentos e exortações aos guerreiros.


8. Contam as narrativas que algumas batalhas, já a ponto de perder-se, foram restabelecidas pelas mulheres, dada a constância de suas preces e a interposição de seus peitos, assim indicado de perto o cativeiro, o que eles temem mais arrebatadoramente com relação a suas mulheres, a ponto de serem mais eficazmente constrangidos os ânimos dos povos a quem se exige, dentre os reféns, garotas nobres[2]. Ademais disso, julgam haver nas mulheres algo de sagrado e previdente e não desprezam seus conselhos nem negligenciam suas predições. Sob o império de Vespasiano, vimos Veleda ser considerada como uma divindade, durante muito tempo, pela maioria dos homens; e outrora veneraram também Aurínia e muitas outras, não com vil lisonja nem como se forjassem deusas.


9. Dentre os deuses, cultuam sobretudo Mercúrio, a quem crêem ser permitido até, em certos dias, imolar vítimas humanas. Abrandam Hércules e Marte com animais permitidos. Uma parte dos Suevos também sacrifica a Ísis; pouco conheço do motivo e origem do rito estrangeiro, apenas sei que o próprio símbolo, figurado à maneira libúrnica, mostra que é um culto trazido se fora. Além do mais, entendem que reter os deuses entre paredes ou forjá-los com rostos semelhantes aos de humanos não está de acordo com a grandeza divina; consagram bosques e florestas e designam com nomes de deuses algo oculto, que veem somente por meio da reverência.


10. Os germanos observam os auspícios e o oráculo mais que qualquer um. O costume de se fazer predições não varia: cortam uma vergôntea retirada de uma árvore frutífera em pequenos ramos e estes, diferenciados por certos caracteres, eles espalham a esmo e fortuitamente sobre um tecido branco. Logo em seguida é consultado o sacerdote da cidade, se for para o interesse público; se particular, o próprio pai de família, que após ter rogado aos deuses, dirige seu olhar ao céu e apanha um a um dos pequenos ramos por três vezes. Feito isso, ele os interpreta segundo o sinal gravado neles anteriormente. Se algo for vetado, nenhuma consulta a respeito do mesmo assunto é feita no mesmo dia, mas se for permitido, uma prova ainda é exigida dos auspícios. Também lhes é algo conhecido buscar respostas nos sons e no voo das aves é algo conhecido por eles, mas é próprio desse povo também consultar presságios e predições utilizando cavalos. Para o interesse público, alguns cavalos brancos intocados pelo trabalho humano são criados naqueles mesmos bosques e florestas, estes são atrelados ao carro sagrado e o sacerdote e o rei, ou o líder da Cidade, os acompanham e observam seus relinchos e frêmitos. Nenhum outro auspício inspira maior confiança, não só na plebe, mas também nos chefes e sacerdotes; de fato, estes últimos consideram-se servos dos deuses, e aqueles animais, seus confidentes. Há ainda outro tipo de observação dos auspícios, por meio do qual consultam o desenlace das duras guerras. Põem em combate um prisioneiro apanhado do povo contra o qual se guerreia, com um escolhido dentre os seus, cada qual com as armas de sua pátria: a vitória deste ou daquele é tomada como prognóstico.


11. Consultam os líderes quando se trata de assuntos menores, os maiores são tratados por todos; entretanto, é de tal forma que também estes últimos, cuja decisão cabe ao povo, são previamente tratados entre os líderes. Reúnem-se em dias determinados: quando a lua começa a crescer ou quando ela se torna cheia, a não ser que sobrevenha algo fortuito e súbito; pois creem ser este início o mais auspicioso para empreender as ações. Não contam, como nós, o número de dias, mas sim de noites. Assim constituem, assim concordam: a noite parece conduzir ao dia. É um vício derivado de sua liberdade não se encontrarem ao mesmo tempo, como se convocados, e assim um dia a mais, e ainda um terceiro, é consumido pela delonga dos participantes. Logo que a multidão tenha aprovado, sentam-se armados. O silêncio é exigido pelos sacerdotes, os quais detém também o direito de reprimir. Logo depois, o rei ou os líderes, de acordo com a idade de cada um, com a nobreza, com a glória nas guerras e com a eloquência, são ouvidos mais pelo poder de persuasão que pela capacidade de dar ordens. Se a proposição desagradar, eles a rejeitam com um grande alarido, porém, se agradar, agitam as frameas; este louvor com armas é o tipo mais honroso de aprovação.


12. Também é permitido, no Conselho, acusar e apresentar penas capitais. A distinção entre as penas é estabelecida a partir dos delitos. Os traidores e desertores são enforcados, os fracos, covardes e pervertidos são mergulhados na lama ou num pântano, e uma grade é colocada por cima. A diversidade de suplícios diz respeito à ideia de que é preciso mostrar os crimes no momento de sua punição e esconder as ignomínias. Mas a pena para delitos mais leves é proporcional: os condenados são multados em uma quantia de cavalos e gado. Uma parte da multa é paga ao rei ou à cidade, a outra parte é para aquele que foi lesado, ou para seus familiares. Nestes mesmos Conselhos também são eleitos os líderes, os quais administram a justiça pelos povoados e rincões. Para cada qual há uma centena de acompanhantes populares, que lhes proporcionam conselhos e autoridade.


13. Não tratam de nenhum assunto, público ou privado, senão armados. Mas, como é de costume, ninguém pega em armas antes que os cidadãos[3] reconheçam que haverão de ser capazes e daí então, durante o próprio Conselho, um dos líderes ou o pai ou os parentes ornam o jovem com o escudo e a framea; isso, entre eles, é como a toga, a primeira honra da juventude. Antes desse momento, ele é considerado membro de uma família e, logo em seguida, membro da república. A ilustre nobreza ou os grandes méritos dos pais dão, mesmo aos adolescentes, o reconhecimento do príncipe; os demais são agregados aos outros mais vigorosos, já há muito aprovados, sem que se veja sinal de vergonha quando junto a seus companheiros. Porém, o próprio agrupamento apresenta graduações, estabelecidas de acordo com o julgamento daquele que seguem; e então é grande a rivalidade entre companheiros na disputa pelo primeiro lugar ao lado de seu líder, e também entre os líderes, na disputa pelo agrupamento mais numeroso e mais enérgico. Traz tal dignidade e poderio estar sempre rodeado por um grande pelotão de jovens escolhidos: a glória na paz e a defesa na guerra. Aquele cujo agrupamento se destaca em número e coragem não apenas entre seu povo, mas também nas cidades vizinhas, tem renome e glória. Então são procurados por embaixadores, são ornados com presentes, e o mais das vezes sua própria reputação leva as guerras quase a cabo.


14. Quando entra na batalha, é vergonhoso para o líder ser vencido em bravura e é vergonhoso para os companheiros não se igualar com o líder em bravura. Além disso, é infame e ignominioso pelo resto da vida ter abandonado a batalha e sobrevivido a seu líder; defendê-lo, protegê-lo e também atribuir-lhe seus próprios feitos grandiosos para a glória dele é a principal consagração militar. Os líderes lutam pela vitória, os companheiros pelo líder. Se a Cidade, na qual nasceram, está entorpecida por uma longa paz e pelo ócio, a maioria dos nobres adolescentes procura por nações que estejam guerreando com outras naquele momento, não só porque a inação é desagradável para seu povo como também mais facilmente tornam-se ilustres em situações de perigo e não se mantém um grande agrupamento sem violência e guerra: é, portanto, da generosidade de seu líder que reclamam aquele famoso cavalo de guerra, aquela sanguinária e vitoriosa framea. Com efeito, banquetes e abundância em apetrechos, ainda que sejam grosseiros, equivalem ao soldo. O material para sua munificência provém de guerras e roubos. Não os convencerias a arar a terra ou a esperar pela colheita tão facilmente como a desafiar o inimigo e conseguir ferimentos. Mas antes consideram improdutivo e sem valor adquirir pelo suor aquilo que pode ser alcançado pelo sangue.


15. Todas as vezes que não vão para a guerra, dedicam-se muito às caçadas, porém vivem mais na ociosidade, entregues ao sono e à comida. Os homens mais fortes e belicosos nada fazendo, o cuidado da casa, dos penates e dos campos confiado às mulheres, aos velhos e aos mais incapazes da família; e eles mesmos ficam ociosos, devido a uma notável contradição em sua natureza, que leva os mesmos homens a amarem assim a indolência e a odiarem a inação. É costume nas cidades servir aos líderes, de modo espontâneo e individualmente, de uma parte de seu rebanho e de sua seara, o que é aceito como honra, mas que também cobre suas necessidades. Alegram-se, sobretudo, com presentes dos povos vizinhos, que não só são enviados por indivíduos, mas ainda em nome da Cidade: cavalos seletos, magníficas armas, colares e braceletes; e já os ensinamos a aceitar dinheiro.


16. Bem se sabe que povos germanos não habitam em centros urbanos, na verdade, não admitem moradias juntas umas com as outras. Moram separados e afastados, conforme agrade uma fonte, um campo ou um bosque. Estabelecem povoados não com edificações contíguas e conjugadas, segundo é nosso costume, mas cada qual circunda sua casa com um espaço, como prevenção contra incêndio ou por falta de habilidade para construir. Nem mesmo fazem uso de cascalho ou telhas, o material usado em todas as circunstâncias é amorfo e sem ornamento ou deleite. Diligentemente revestem certos locais com terra tão limpa e esplendente, que simula pintura e esboços coloridos. Costumam também abrir cavernas subterrâneas e cobri-las com muito esterco, como um refúgio no inverno e despensa de grãos, porque locais assim aliviam o rigor do frio e quando o inimigo chega, destrói aquilo que está à vista, mas os lugares escondidos e debaixo da terra são desconhecidos e ludibriam exatamente porque devem ser procurados.


17. Todos vestem um saio fechado com uma fivela ou, na falta desta, com um espinho[4]; nus quanto ao mais, passam dias inteiros junto ao calor do fogo. Os mais ricos são diferenciados pelo uso de uma veste, que não é larga como a dos Sármatas e dos Partos, mas justa, marcando todas as formas do corpo. Também trazem em si peles de fera, negligentemente os povos às margens do rio, de modo mais cuidado os que habitam o interior, dado que estes últimos não obtêm adornos por relações comerciais.


Primeiro eles escolhem as feras e depois retiram suas peles e forram-nas com fibras e couro de grandes animais, criados pelo Oceano exterior e desconhecido mar. Este é o traje de homens e mulheres; todavia, as mulheres cobrem-se mais frequentemente com mantos de linho, matizados de púrpura. Não alongam a parte superior do vestido em mangas, deixando nus os braços e o colo à mostra.


18. Embora os casamentos lá sejam austeros, não louvarias tanto nenhum outro costume deles. Pois eles são praticamente os únicos bárbaros que se contentam com uma só esposa, com exceção de alguns poucos que são requisitados a contrair matrimônios, não por lascívia, mas pela nobreza. Não é a esposa que oferece o dote ao marido, e sim o marido à esposa. Os parentes e amigos estão junto e avaliam os presentes, os quais não são buscados de acordo com caprichos femininos nem se enfeita com estes a recém-casada, são bois, cavalos com rédeas e escudo com framea e gládio. Com estes presentes arranja-se uma esposa, e ela, por sua vez, leva alguma arma ao marido: nisto veem o maior dos vínculos, o mistério sagrado, os deuses conjugais. Para que a esposa não se considere sem pensamentos de coragem e sem riscos de guerra, ela é admoestada a se tornar companheira dos trabalhos e perigos desde os auspícios iniciais do matrimônio, e há de sofrer e arriscar-se igualmente na paz e no prélio; os bois jungidos, o cavalo aparelhado, as armas dadas declaram isso. Assim deve viver, assim deve criar: o conhecimento que adquire, inviolado e o conveniente, transmite a seus filhos, e as noras têm de aprender e, em seguida, expor aos netos.


19. Vivem, portanto, em restrita pudicícia, que não é corrompida pelos atrativos dos espetáculos ou pelos excitamentos dos banquetes. Homens e mulheres, igualmente, desconhecem a conversação secreta por meio de cartas. Para uma população tão numerosa, há pouquíssimos casos de adultério, os quais têm punição imediata e concedida aos maridos: depois de ter seus cabelos cortados, ela é despida e na frente dos conhecidos o marido a expulsa de casa e a persegue com uma vara por todos os cantos. Não há perdão para a pudicícia prostituída: nem pela beleza, nem pela idade, nem pelas posses ela encontrará um marido. Lá ninguém ri dos vícios e não dizem que corromper ou ser corrompido é próprio da época. Certamente, ainda são melhores essas cidades em que apenas as donzelas se casam e vive-se com esperança e voto de esposa uma só vez. Assim, casam-se com um único marido, de forma a haver um único corpo e uma única vida e não haja outro pensamento ou paixão posterior e para que o amem não por ser um marido, mas por ser um matrimônio. Determinar o número de filhos ou matar algum dos que nascerem a mais é considerado ação torpe; e bons costumes ali valem mais que boas leis em outro lugar.


20. Em todas as casas, as crianças crescem nuas e sujas quanto a braços e pernas e quanto aos corpos, os quais admiramos. Sua mãe alimenta-as com os seios, e não as confia a criadas ou amas. Você não conseguiria discernir o senhor do escravo por caprichos de criação; eles passam o tempo em meio aos mesmos animais e no mesmo chão, até que a idade distinga os nascidos livres e a virtude os reconheça. A vida sexual dos jovens demora para começar e por isso a mocidade é vigorosa. As moças não se apressam em casar; elas vivem a mesma juventude que eles e têm estaturas semelhantes. Quando se unem, são iguais em idade e força e seus filhos reproduzem em si a robustez dos pais. Com relação aos filhos das irmãs, a consideração do tio é a mesma que a do pai. Alguns julgam ser esse vínculo sanguíneo mais sagrado e estreito e, ao receber prisioneiros, isso é o que mais exigem, como se assim obtivessem um caráter mais firme e uma família maior. Entretanto, os herdeiros e sucessores de cada qual são seus filhos e não há nenhum testamento; se não houver filhos, os graus de parentesco mais próximos para a posse dos bens são irmãos, tios paternos e tios maternos. Quanto mais parentes, quanto maior o número de amigos, tanto mais favorecida será a velhice; e não se paga preço algum pela falta de filhos.


21. É necessário adotar as inimizades de seu pai ou parente assim como suas amizades; e não subsistem os renitentes, pois por um homicídio paga-se com certa quantia de gado e animais de seu rebanho e a família inteira aceita a reparação, com proveito para todos, porque as inimizades são mais perigosas entre pessoas livres.


Nenhum outro povo concede tão abundantemente familiaridade e hospitalidade. É considerado crime negar abrigo a qualquer ser humano; cada um, conforme suas posses, acolhe com um magnificente banquete. Depois de terminado, aquele que há pouco era o hóspede, é o que indica quem hospedará e acompanha, então adentram na casa vizinha sem terem sido convidados. Mas não importa, eles são recebidos com a mesma polidez. Ninguém faz distinção entre conhecidos e desconhecidos no que diz respeito ao direito de hospitalidade. Se os que estão de saída reclamarem algo para si, é costume conceder; em contrapartida, há a mesma liberdade de pedir-lhes. Alegram-se com presentes, mas não se gabam pelo que dão e não se obrigam pelo que recebem. [O modo de viver entre hóspedes é generoso.]


22. Depois de despertarem do sono, que quase sempre prolongam pelo dia, lavam-se geralmente em água quente, já que entre eles o inverno é predominante. Limpos, fazem a refeição em cadeiras individuais e cada qual em sua mesa. Então, vão aos negócios, e não raras vezes aos banquetes, armados. Passar o dia e a noite bebendo não é vergonha para nenhum deles. As duras brigas entre bêbados, raramente com gritarias, terminam geralmente em derramamento de sangue e ferimentos. No entanto, quase sempre deliberam nesses banquetes sobre a reconciliação recíproca de inimigos, a formação de alianças, a eleição de chefes e até mesmo a paz e a guerra, como se em nenhum outro momento o espírito estivesse mais aberto a simples reflexões ou se aquecesse mais para as grandes. O povo, que não é astucioso nem sagaz, expõe os até então segredos do coração pela licença da circunstância; portanto, a mente de todos está descoberta e nua. No dia seguinte, a argumentação é retomada, sem prejuízo de um ou outro momento: deliberam quando não conseguem fingir e decidem quando não podem duvidar.


23. Para beber há um líquido feito de cevada e grãos, que depois de fermentado guarda certa semelhança com o vinho. Os povos próximos às margens do rio também compram vinho. As refeições são simples, frutas do campo, carne fresca, leite coalhado; matam a fome sem refinamento, sem delícias. Com relação à sede, não usam da mesma moderação. Se fores complacente com sua embriaguez, trazendo o quanto desejarem, tão mais facilmente serão vencidos pelos vícios como pelas armas.


24. O tipo de espetáculo é um só e o mesmo em todo encontro: jovens nus, que consideram um divertimento lançar-se com um salto em meio a espadas e hostis frameas. A prática levou à habilidade e a habilidade à elegância, mas não para proveito ou por paga; ainda que sejam brincadeiras audaciosas, a satisfação dos espectadores é sua recompensa. Ocupam-se de jogos quando sóbrios como de um assunto sério, o que é de se admirar, com tanto desatino para ganhar ou perder que, quando se esgotarem todas as possibilidades, disputarão seu corpo e liberdade em um lance extremo e derradeiro. O perdedor segue em voluntária servidão e ainda que seja o mais jovem e mais forte, ele sofre por ser preso e vendido; tal a persistência em uma prática insensata, a que eles chamam de integridade. Comercializam escravos desta condição, para que também se liberem da vergonha de uma vitória assim.


25. Possuem escravos, que não são, como é nosso costume, designados para serviços domésticos. Cada um governa sua casa e moradia. O senhor demanda dele, como de um colono, uma quantidade de grãos, animais ou vestes, e o escravo é bastante obediente. A esposa e os filhos realizam os demais afazeres do lar. Bater em um escravo e castigá-lo com trabalho e amarras é raro: costumam matá-los, não por disciplina ou rigor, mas por impulso e raiva, como a um inimigo, fora isso não há punição. Os homens livres não são muito superiores aos escravos; estes raramente possuem alguma influência na casa, nunca na Cidade, com exceção apenas daqueles povos comandados por reis; lá, com efeito, eles sobrelevam-se aos homens livres e aos nobres, mas para os outros, as desigualdades entre os libertos são prova de liberdade.


FIM DA PRIMEIRA PARTE.

Notas:

[1] Lança curta, uma espada; estas ou outras denominações para essa arma tipicamente germânica poderiam ter sido usadas, mas por ser framea o nome germânico utilizado por Tácito no texto latino, seguido de sua definição, mantivemos a palavra framea todas as vezes que o objeto designado por esse termo é mencionado e também para destacar este vocábulo, um de apenas três que Tácito apresenta da linguagem dos germanos. N. da Tradutora.

[2] Civitas nesta passagem refere-se à organização social, podendo ser entendida como “Estado”, e por esta razão traduzimo-na como “Cidade”. N. da T.

[3] Neste caso civitas diz respeito aos próprios cidadãos e por isso foi traduzida por “cidadãos” e não por “Cidade”. N. da T.

[4] Este trecho retoma tanto as Metamorfoses de Ovídio, 14, 166 spinis conserto tegmine nullis, quanto a Eneida de Virgílio, 3, 594 consertum tegumen spinis. Ambos tratam de Aquemênidas, quem Odisseu deixa na terra dos Cíclopes. N. da T.